Quinta-feira, Junho 02, 2011

"O Playboy - Marialva" - Prof. Luis S. Campos

Ah, e o playboy genuinamente nacional? - poderá perguntar-se com aquela mania que nós temos do "made in Portugal" (mania mentalizada para os produtos que nos interessam, porque quanto aos outros nem à custa de campanhas publicitárias maciças!). Bom, a isso respondemos apresentando um produto bem castiço, típico e original, que é - o playboy marialva.


Sendo o marialva não uma estirpe mas o depositário de um estado de graça, e o marialvismo, no seu sentido mais amplo, um estado de espírito privilegiadamente lusitano, há desde já a observar que apenas caberáaqui referir o marialva restrito e actualizado, isto é o subproduto em quarta geração - que embora não passe de um negativo desbotado tem o seu lugar assegurado por direito de transmissão na sociedade portuguesa. Esse tipo, aqui designado por "marialva-playboy", apresenta algumas características evidentes que são:

- É sempre "filho-do-pai", podendo o pai ser: a) grande proprietário de terras; b) grande proprietário de fábricas; c) ambas as coisas.

- Para ser genuíno é originário da terra riba-tejana, norte além-tejana ou estremanha confrontante.

- O animal que prefere, antes da mulher, é o cavalo.

- O bicho que mais o interessa, depois da mulher, é o touro.

- A mulher que o atrai é o apuramento sofisticado da fêmea leiteira andaluza com a égua árabe em período de cio.

- Os seus desportos preferidos são: 1º - a tourada; 2º - a farra depois da tourada.

- Ama nostalgicamente a guitarra mas não se confunde no fado alfacinha.

- Assume nos fins- de-semana a indispensável prática equestre mas habitualmente cavalga um fórmula-dois artilhado.

- Porque "noblesse-obligue", participa duas vezes por ano em saraus for-de-portas mas a discoteca é o seu poiso habitual.

- Por imposição familiar procura munir-se de um diploma de estudos - liceais ou mais ou menos agrícolas.

- Não desperdiça uma oportunidade, fora da quadra carnavalesca, para disfarçar-se com as vestes tradicionais da função.

- Considera que portugueses de raça - autênticos - são só ele e alguns confrades com pedigree .

E , porque acha que tem raízes na terra, o "marialva-playboy" exibe habitualmente um potencial telúrico apreciável, o qual evidencia em todas as circunstâncias e em particular na troca pessoal de opiniões - enfrentando normalmente o opositar á chapada, sobretudo se na ocasião do diálogo já transitou pelos copos.

Temos, pois, que o exemplar em análise é herdeiro de meia costela nobre de velho guerreiro lusíada, esclerosada embora pelos tropeções que uma história descuidada lhe deu mas parafinada por sublime instinto de sobrevivência. E que (aqui só para nós) do casamento do marialva com o playboy resultou este híbrido que não consegue ocular que já só aguenta os copos à custa de pepsmar, toma lorenim para acalmar o "medo" e, porque se deita dada vez mais sozinho... só dorme com soporíferos.

Emfim, o playboy-marialva poderá não ter subsídio do Fundo Social Europeu - mas é português e é nosso! Cumpre-nos, por isso, preservá-lo para que não se extinga.


Luis S. Campos (Prof. Cat.)

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