sábado, março 17, 2012

Os Caminhos desapareceram da Alma Humana



"Caminho: faixa de terra sobre a qual se anda a pé. A estrada distingue-se do caminho não só por ser percorrida de automóvel, mas também por ser uma simples linha ligando um ponto a outro. A estrada não tem em si própria qualquer sentido; só têm sentido os dois pontos que ela liga. O caminho é uma homenagem ao espaço. Cada trecho do caminho é em si próprio dotado de um sentido e convida-nos a uma pausa. A estrada é uma desvalorização triunfal do espaço, que hoje não passa de um entrave aos movimentos do homem, de uma perda de tempo.Antes ainda de desaparecerem da paisagem, os caminhos desapareceram da alma humana: o homem já não sente o desejo de caminhar e de extrair disso um prazer. E também a sua vida ele já não vê como um caminho, mas como uma estrada: como uma linha conduzindo de uma etapa à seguinte, do posto de capitão ao posto de general, do estatuto de esposa ao estatuto de viúva. O tempo de viver reduziu-se a um simples obstáculo que é preciso ultrapassar a uma velocidade sempre crescente."

Milan Kundera, in "A Imortalidade"

segunda-feira, outubro 31, 2011



Morri...
Não sei o que morri...
Não sei o que jaz em mim...

Morte=transgressão do Ter!
Que possuímos além-Morte?
... o Ser!


Francisco Canelas de Melo



Ouvimos os sons do Mundo,
Ruído infernal,
Onde reina o Silêncio em Nós?

Escutamos ou ouvimos?...
Existimos ou vivemos?
Olhamos ou vemos?...

Onde reinas tu, ó Encoberto?
Onde jaz tua Morte?!


Francisco Canelas de Melo

terça-feira, agosto 02, 2011

«Aspiro a um repouso absoluto e a uma noite contínua. Poeta das loucas voluptuosidades do vinho e do ópio, não tenho outra sede a não ser a de um licor desconhecido na Terra e que nem mesmo a farmacopeia celeste poderia proporcionar-me; um licor que não é feito nem de vitalidade, nem de morte, nem de excitação, nem de nada. Nada saber, nada ensinar, nada querer, nada sentir, dormir e sempre dormir, tal é actualmente a minha única aspiração. Aspiração infame e desanimadora, porém sincera.»

Charles Baudelaire

terça-feira, abril 26, 2011

As Liberdades Essenciais - Agostinho da Silva


«As liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização social, liberdade económica. Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo o seu espírito crítico e criador; ninguém lhe fechará nenhum domínio, ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver aprendido ou pensado. Pela liberdade de organização social, o homem intervém no arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando, em sistemas cada vez mais perfeitos à medida que a sua cultura se for alargando; para o bom governante, cada cidadão não é uma cabeça de rebanho; é como que o aluno de uma escola de humanidade: tem de se educar para o melhor dos regimes, através dos regimes possíveis. Pela liberdade económica, o homem assegura o necessário para que o seu espírito se liberte de preocupações materiais e possa dedicar-se ao que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro homem; ninguém deve, pela posse dos meios de produção e de transporte, que permitem explorar, pôr em perigo a sua liberdade de Espírito ou a liberdade de Espírito dos outros. No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não haverá nenhuma restrição de cultura, nenhuma coacção de governo, nenhuma propriedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno de todos.»

Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'

domingo, março 20, 2011

Saudade - Teixeira de Pascoaes



"Se há no homem um sentimento superior, é a saudade. Por sua virtude, integramos em nós o espaço, o pretérito e o porvir; e alcançando os limites da consciência, descortinamos, lá em cima, uma nova Realidade, muito embora longínqua e indecisa... Pressentimo-la; e este pressentimento é o mais a que podemos aspirar. É o sinal humano. A saudade é lembrança e esperança. Camões adivinhou esta verdade. As lembranças dum bem ou mal futuro... A Saudade, incidindo sobre o futuro, é esperança ou desejo, como é lembrança quando incide sobre o passado. O primeiro elemento da Saudade é criador; o segundo fixa e perpetua (....)"

Teixeira de Pascoaes, "Livro de Memórias"

quarta-feira, março 16, 2011

"Alchimie de la douleur" - Charles Baudelaire

Alchimie de la douleur

L'un t'éclaire avec son ardeur,
L'autre en toi met son deuil, Nature!
Ce qui dit à l'un: Sépulture!
Dit à l'autre: Vie et splendeur!
Hermès inconnu qui m'assistes
Et qui toujours m'intimidas,
Tu me rends l'égal de Midas,
Le plus triste des alchimistes;
Par toi je change l'or en fer
Et le paradis en enfer;
Dans le suaire des nuages
Je découvre un cadavre cher,
Et sur les célestes rivages
Je bâtis de grands sarcophages.

 Charles Baudelaire

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Bussaco



Bussaco é um mar
imenso sem fim...

O Abismo que outrora
reluzia do poço-fundo,

É a Morte que lhe impõem...
a Esperança quase-perdida...

Ontem era um Mar,
verde, sem fim...

Hoje, é uma clareira,
ferida, aberta e moribunda.

Onde andarás tu amanhã,
Ó Mar verdejante sem-fim?...

Francisco Canelas de Melo
Bussacrum, 24.II.MMXI

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

"O Poeta é soberanamente inteligente, é a inteligência por excelência; e a imaginação é a mais científica das faculdades, porque só ela compreende a analogia universal, ou o que uma religião mística denomina a correspondência."

Charles Baudelaire

sábado, dezembro 11, 2010

"Arrábida" - Teixeira de Pascoes




"A Arrábida é o Horeb da Saudade, o monte sagrado onde ela aparece a vez primeira, encarnada no seu divino ser. Esparsa em névoa melancólica e amorosa em Bernardim, Luís de Camões dá-lhe o sentido cósmico e profundo que em Frei Agostinho da Cruz se diviniza. A névoa antiga condensou-se no espectro camoniano da Natura, para amanhecer, em perfeita aurora espiritual, sobre os ermos místicos da Arrábida."

Teixeira de Pascoaes



"Só há felicidade para o homem quando o archote da dor intensa se acende nele; é somente então que começa seu nascimento espiritual; é então que, a exemplo dos profetas, ele grita dia e noite e se lamenta pelo seu fado e pelo destino da posteridade humana. Deita-se em meio a suspiros; passa a noite em lágrimas; levanta-se ainda chorando e, durante todo o dia, carrega amargura em seu coração. Assim é a dura prova pela qual é preciso que o homem de verdade espere vir a passar. Enquanto ainda não chega lá, não lhe é permitido se considerar como já nascido."

Louis-Claude de Saint-Martin

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Saudade - António Barahona


A Saudade é a essência da Poesia. Todos os homens têm um passado: armazenam na memória momentos e eventos que lhes deixaram sulcos de desejo, aberturas para o futuro através das quais vislumbram o passado novamente ao seu encontro como possibilidade redentora; mas só alguns, muito poucos, os Poetas, cultivam e contemplam, conscientemente, o tempo volvido em eterna promessa.

A Saudade é um sentimento, que inclui uma espécie de programa, melhor diria empreendimento, em relação ao Desconhecido; não constitui apenas o sofrimento provocado por algo que existiu e desapareceu, legando um vazio de valor, mas também e principalmente num ímpeto de alegria melancólica a caminho do Império do Futuro, que é o Momento Presente, o único ponto no tempo em que a eternidade faz um buraco para dar passagem ao Amor Humano.

O facto de a palavra Saudade não ser vertível em nenhum idioma do mundo, assinala Portugal como fundador do Verbo Inspirado: o primeiro sítio no planeta, depois do aparecimento do homem, em que se ouviu cantar uma voz que evocava o passado todo de silêncio, servindo-se das suas partes, em pausas melódicas, a fim de criar o ritmo poético.

O Mito antecipa-se à História como Realidade Revelada, e a Lenda encerra, na sua etimologia, a Verdadeira Leitura Correcta do que se deve entender como Sinal Genuíno da História.

Em todas as línguas articuladas no mundo, incluindo as classificadas erradamente como mortas, que são, afinal, as mais vivas e vívidas, faladas na solidão entre o homem e Deus, ou entre Deus e multidões de homens numa assembleia de som, em todas as línguas articuladas no mundo, dizia, há palavras intradaduzíveis, (em sentido absoluto todas o são), que, por exprimirem sentimentos inerentes à idiossincracia religiosa dos que as proferem, exigem a sua anexação e a sua exegese, por analogia ou indeclinável diferença, veiculando, assim, o enriquecimento do léxico e a aquisição de sabedoria.

A palavra Saudade é um exemplo flagrante do que acabo de transmitir. Surpreendêmo-la em autores estrangeiros, como Blaise Cendrars, que descobriram que, ao entoá-la como mantra, isto é, como anáfora, o sentimento, que tal palavra exprime, integra a essência da Poesia em simultaneidade com a ciência, auxiliar do Poeta provocador da visão sagrada: teofania.

Também nós, portugueses, sentimos coisas para as quais não temos nome, mas basta viajarmos e aprender outras línguas, vivendo conforme os costumes e tradições ancestrais dos autóctones, para depararmos com as designações apropriadas, em vocábulos estranhos, tornados, de repente, estranhadamente familiares.

Saudade e Poesia Portuguesa trazem-nos imediatamente ao bico da pena os apelidos de Camões e Pascoes, os apelidos que representam, com mais eficácia, a alma da Pátria, em perpétua lucidez e activa submissão à Monarquia divina, que nada tem a ver com os aspectos absortos e soberbos da política literária local, mas sim, e exclusivamente, com o céu astrológico de Portugal, configurado na constelação do Espírito Santo, visível, de olhos fechados, de qualquer ponto do Universo.

A Saudade, portanto, é comum à Poesia Universal, mesmo oculta, isto é, mesmo quando tal palavra mântrica, que confere discernimento, é ignorada; e, na Poesia Portuguesa, a Saudade é primordial e perene, porque, repito, foi aqui, na Andaluzia, que abrange a actual região deste topónimo e Portugal, que, pela primeira vez, a voz humana vibrou saudosa, continuando, até hoje, o seu eco no deserto.

30.VIII.89

António Barahona
in "Os Dois Sóis da Meia-Noite", Átrio, 1990

quinta-feira, novembro 11, 2010

São Martinho



«São Martinho é o primeiro dos Santos não Mártires, o primeiro Confessor, que subiu aos altares no Ocidente. No dizer de Durando de Mende, a liturgia consagra-lhe um lugar semelhante aos dos Apóstolos, por ter sido ele quem concluiu a evangelização das Gálias. A sua festa era de guarda e favorecida frequentemente pelos dias de "verão de São Martinho", rivalizando, na exuberância da alegria popular, com a festa de S. João. Tinha Oitava como S. Lourenço, porque S. Martinho, "pérola dos sacerdotes", era entre os Confessores o que S. Lourenço era entre os Mártires, o maior dos Confessores. Nasceu na Sabária Panónia) e veio para as Gálias como soldado.

Sendo ainda catecúmeno, deu um dia perto de Amiens a um pobre, que Ihe pedia esmola por amor de Cristo, metade da clâmide. Na noite seguinte, Jesus Cristo apareceu-lhe vestido com essa metade que ele dera ao pobre, e disse-lhe: "Martinho, sendo ainda catecúmeno, vestiu-me com este manto".


Recebeu o baptismo aos 18 anos. Depois de viajar pelo Oriente, onde se iniciou na vida monástica, faz por algum tempo vida de eremita numa ilha das costas da Ligúria. Finalmente, fez-se discípulo de Santo Hilário, que então florescia na cadeira episcopal de Poitiers e fundou no deserto de Ligugé, a duas léguas da sede do Bispado, um mosteiro para onde se retirou com alguns discípulos. Lançou assim os alicerces do monaquismo nas Gálias.


Mas Deus não queria que esta luz, ficasse oculta debaixo do alqueire, e S. Martinho foi arrancado à paz da solidão e revestido da dignidade episcopal, que lhe deu ensejo para desenvolver largamente os dotes do seu coração de apóstolo. Pregou o Evangelho pelos campos da Gália e extirpou de vez os resíduos tenazes do paganismo, que tinham resistido à investida cristã a coberto da superstição e da ignorância do povo. Colocado à frente da diocese de Tours, fundou a célebre abadia de Marmoutiers ou o grande mosteiro aonde com frequência se retirava para viver mais longe do mundo,e mais perto de Deus. Cercavam-no oitenta monges de vida santíssima, pautada pelo exemplo e regra dos eremitas da Tebaida.


Viveu mais de oitenta anos, ocupado sempre com a glória de Deus e a salvação das almas, e morreu em Candes, perto de Tours, em 397.


Ao seu túmulo afluíam de toda a parte peregrinações frequentes. Gregório de Tours, que lhe sucedeu, não hesita em chamar-lhe o "Patrono de todo o mundo". Poucos santos alcançaram a popularidade dele. Só em França há perto de mil igrejas paroquiais e 485 burgos e lugares com o seu nome. Em Roma é notável a igreja de S. Silvestre e S. Martinho, onde se faz a estação de quinta-feira da quarta semana da Quaresma.
A capa de São Martinho era conduzida à frente dos exércitos em tempo de guerra e nela se pregavam os sermões solenes em tempo de paz. Símbolo da protecção, que S. Martinho dispensava à França, esta capa deu o nome ao oratório, que a guardava, e a todos os oratórios, ou "capelas"»





Chaves, Luís -"São Martinho de Tours", in Separata da Revista de Etnografia nº1, Museu de Etnografia e História (1963)

quinta-feira, julho 15, 2010

"Para mim, o romancista é o historiador do presente, enquanto o historiador é o romancista do passado."


Georges Duhamel

segunda-feira, maio 03, 2010

"A União do Céu e do Inferno" de William Blake



Os Poetas antigos animaram todos os objectos sensíveis com Deuses ou Génios, designando-os pelos nomes e ornando-os com os atributos de florestas, rios, montanhas, lagos, cidades nações e tudo quanto os seus sentidos dilatados e numerosos podiam perceber.
Estudaram em particular a índole de cada cidade e país, subordinando-a à sua divindade mental;
Até que se formou um sistema de que alguns se aproveitaram para escravizarem o vulgo, pretendendo tornar reais as divindades mentais ou abstraí-las do seus objectos: foi assim que apareceram os padres,
Retirando formas de culto de lendas poéticas.
E por fim proclamaram que tudo isso tinha sido determinado pelos Deuses.
Assim, os homens esqueceram-se de que Todas as divindades residem no coração humano.
(...)


William Blake in A União do Céu e do Inferno

domingo, abril 25, 2010

Jacob Boehme



"Eu sempre o remeterei a Boehme, que em todos os pontos é dez mil vezes melhor do que um escrivinhador como eu.


Encontro em suas obras uma solidez que não pode ser movida, uma profundidade, uma elevação e um alimento tão pleno e infalível que considero perda de tempo buscar tais coisas em outro lugar.


Aconselho-o a lançar-se, por todos os meios, nesse conhecimento imenso das mais profundas de todas as verdades.
Não sou digno de desatar os cadarços desse homem admirável."

Louis Claude de Saint-Martin

sexta-feira, abril 23, 2010




"Eu vi o Ser de todos os Seres, a Superfície e o Abismo; vi também o nascimento da Santa Trindade; a origem e o primeiro estado do mundo e de todas as criaturas. Vi em mim mesmo os três mundos - o mundo angélico ou Divino; o mundo das trevas, a origem da Natureza; e o mundo externo, como uma substância manifestada dos dois mundos espirituais... No meu interior vi isto muito bem, como em uma grande profundidade; pois vi directamente no caos onde tudo permanece envolto, mas não pude fazer revelação alguma. De tempo em tempo tudo isto floresce em mim como o crescer de uma planta. Por doze anos guardei tudo comigo, antes de poder manifestar de alguma forma externa. Até então isto abateu-se sobre mim, como uma carga que mata o que atinge. Escrevi tudo o que pude exteriorizar. A obra não é minha. Não sou mais do que um instrumento do Senhor, com o qual Ele faz o que deseja".


Jacob Boehme

sexta-feira, março 26, 2010




"É um grande trabalho o procurarmos nos conhecer tal como somos; mas é preciso depois trabalharmos para nos conhecermos tal como deveríamos ser. Estas duas ciências estão ligadas e delas devemos nos ocupar constantemente. Uma terceira ciência segue-se a estas duas e é sem dúvida a mais difícil de todas. Trata-se de que, após termos aprendido a conhecer o que deveríamos ser, é preciso trabalharmos sem descanso para assim nos tornarmos."

Louis Claude de Saint-Martin - O "Filósofo Desconhecido"

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Sétima Carta

"Também amar é bom: porque o amor é difícil. O amor de uma pessoa por outra: é talvez essa a maior dificuldade que conhecemos, o extremo, a última prova e teste, o trabalho que todos os outros trabalhos apenas preparam. É por isso que a juventude, que é principiante em tudo, não pode ainda amar: tem de aprender primeiro. Com todo o seu ser, com todas as suas forças, concentrada no seu coração solitário e aflito que bate em movimento ascendente, tem de aprender a amar. Mas o tempo de aprendizagem é sempre longo e fechado, e por isso para quem ama o amor é solidão por muito tempo, pela vida fora, é um isolamento que ascende e se aprofunda. Amar não tem de início nada que ver com abrir-se, entregar-se e unir-se a uma outra pessoa (pois o que seria uma união do que ainda não se esclareceu nem completou, do que ainda se subordina...?), é antes uma ocasião sublime concedida ao indivíduo para que ele possa amadurecer, tornar-se qualquer coisa dentro de si, tornar-se mundo, tornar-se mundo para si em nome de um outro, é um imperativo grande e imodesto que faz dele um eleito e o chama para a distância. É só neste sentido, enquanto injunção para trabalhar dentro de si («escutar e martelar dia e noite»), que a juventude poderá usar o amor que lhe é dado. A abertura e a entrega e toda a espécie de comunhão não é para ela (que terá ainda de poupar e guardar por muito, muito tempo), é o último estádio, é talvez qualquer coisa que a vida humana agora ainda mal pode alcançar. (...)"

"Cartas a um Jovem Poeta" (Sétima Carta) de Rainer Maria Rilke