quinta-feira, julho 15, 2010

"Para mim, o romancista é o historiador do presente, enquanto o historiador é o romancista do passado."


Georges Duhamel

segunda-feira, maio 03, 2010

"A União do Céu e do Inferno" de William Blake



Os Poetas antigos animaram todos os objectos sensíveis com Deuses ou Génios, designando-os pelos nomes e ornando-os com os atributos de florestas, rios, montanhas, lagos, cidades nações e tudo quanto os seus sentidos dilatados e numerosos podiam perceber.
Estudaram em particular a índole de cada cidade e país, subordinando-a à sua divindade mental;
Até que se formou um sistema de que alguns se aproveitaram para escravizarem o vulgo, pretendendo tornar reais as divindades mentais ou abstraí-las do seus objectos: foi assim que apareceram os padres,
Retirando formas de culto de lendas poéticas.
E por fim proclamaram que tudo isso tinha sido determinado pelos Deuses.
Assim, os homens esqueceram-se de que Todas as divindades residem no coração humano.
(...)


William Blake in A União do Céu e do Inferno

domingo, abril 25, 2010

Jacob Boehme



"Eu sempre o remeterei a Boehme, que em todos os pontos é dez mil vezes melhor do que um escrivinhador como eu.


Encontro em suas obras uma solidez que não pode ser movida, uma profundidade, uma elevação e um alimento tão pleno e infalível que considero perda de tempo buscar tais coisas em outro lugar.


Aconselho-o a lançar-se, por todos os meios, nesse conhecimento imenso das mais profundas de todas as verdades.
Não sou digno de desatar os cadarços desse homem admirável."

Louis Claude de Saint-Martin

sexta-feira, abril 23, 2010




"Eu vi o Ser de todos os Seres, a Superfície e o Abismo; vi também o nascimento da Santa Trindade; a origem e o primeiro estado do mundo e de todas as criaturas. Vi em mim mesmo os três mundos - o mundo angélico ou Divino; o mundo das trevas, a origem da Natureza; e o mundo externo, como uma substância manifestada dos dois mundos espirituais... No meu interior vi isto muito bem, como em uma grande profundidade; pois vi directamente no caos onde tudo permanece envolto, mas não pude fazer revelação alguma. De tempo em tempo tudo isto floresce em mim como o crescer de uma planta. Por doze anos guardei tudo comigo, antes de poder manifestar de alguma forma externa. Até então isto abateu-se sobre mim, como uma carga que mata o que atinge. Escrevi tudo o que pude exteriorizar. A obra não é minha. Não sou mais do que um instrumento do Senhor, com o qual Ele faz o que deseja".


Jacob Boehme

sexta-feira, março 26, 2010




"É um grande trabalho o procurarmos nos conhecer tal como somos; mas é preciso depois trabalharmos para nos conhecermos tal como deveríamos ser. Estas duas ciências estão ligadas e delas devemos nos ocupar constantemente. Uma terceira ciência segue-se a estas duas e é sem dúvida a mais difícil de todas. Trata-se de que, após termos aprendido a conhecer o que deveríamos ser, é preciso trabalharmos sem descanso para assim nos tornarmos."

Louis Claude de Saint-Martin - O "Filósofo Desconhecido"

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Sétima Carta

"Também amar é bom: porque o amor é difícil. O amor de uma pessoa por outra: é talvez essa a maior dificuldade que conhecemos, o extremo, a última prova e teste, o trabalho que todos os outros trabalhos apenas preparam. É por isso que a juventude, que é principiante em tudo, não pode ainda amar: tem de aprender primeiro. Com todo o seu ser, com todas as suas forças, concentrada no seu coração solitário e aflito que bate em movimento ascendente, tem de aprender a amar. Mas o tempo de aprendizagem é sempre longo e fechado, e por isso para quem ama o amor é solidão por muito tempo, pela vida fora, é um isolamento que ascende e se aprofunda. Amar não tem de início nada que ver com abrir-se, entregar-se e unir-se a uma outra pessoa (pois o que seria uma união do que ainda não se esclareceu nem completou, do que ainda se subordina...?), é antes uma ocasião sublime concedida ao indivíduo para que ele possa amadurecer, tornar-se qualquer coisa dentro de si, tornar-se mundo, tornar-se mundo para si em nome de um outro, é um imperativo grande e imodesto que faz dele um eleito e o chama para a distância. É só neste sentido, enquanto injunção para trabalhar dentro de si («escutar e martelar dia e noite»), que a juventude poderá usar o amor que lhe é dado. A abertura e a entrega e toda a espécie de comunhão não é para ela (que terá ainda de poupar e guardar por muito, muito tempo), é o último estádio, é talvez qualquer coisa que a vida humana agora ainda mal pode alcançar. (...)"

"Cartas a um Jovem Poeta" (Sétima Carta) de Rainer Maria Rilke

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

«(...) o Homem é o único livro escrito pela mão de Deus. Todos os outros livros que nos chegaram foram ordenados por Deus ou, melhor ainda, Ele deixou-os serem feitos.»

O Filósofo Desconhecido

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Autognose por Álvaro Ribeiro

"Gnôthi séauton, nosce te ipsum, conhece-te a ti mesmo.
Este preceito helénico, insculpido no frontão do templo de Apolo, em Delfos, foi referido por Sócrates aos seus discípulos atenienses como princípio da arte de filosofar. Tal é, pelo menos, a versão que nos foi transmitida por Cícero no livro intitulado Tusculanas, com origem segura em antiga tradição.

(...)

Conhecer-se a si próprio é, efectivamente, conhecer-se como espírito. A energia primordial que assim é dada à consciência não deve, porém, ser confundida com o pensamento, segundo o erro de Descartes, nem com os princípios da lógica escolar, segundo o erro de Hegel. Ao conhecer-se a si próprio, gnosicamente, o homem adquire a certeza de que pensa e raciocina para se relacionar com o espírito universal, e esta certeza habilita-o a adquirir por consistência aquela virtude que denominamos fé. (...)"

Álvaro Ribeiro in "A Razão Animada"

quarta-feira, janeiro 13, 2010




"Que mal existe em ser culto, em amar os belos conhecimentos, em ser sábio e ser tido como tal? Qual o obstáculo que há nisso com relação ao conhecimento de Deus? Não são antes adjutórios para atingir a verdade?"

Orígenes in Contra Celsum

segunda-feira, janeiro 04, 2010

A Ordem de Christo

"A Ordem de Cristo não tem graus, templo, rito, insígnia ou passe. Não precisa reunir, e os seus cavaleiros, para assim lhes chamar, conhecem-se sem saber uns dos outros, falam-se sem o que propriamente se chama linguagem. Quando se é escudeiro dela não se está ainda nela; quando se é mestre dela já se lhe não pertence. Nestas palavras obscuras se conta quanto basta para quem, que o queira ou saiba, entenda o que é a Ordem de Cristo — a mais sublime de todas do mundo.

Não se entra para a Ordem de Cristo por nenhuma iniciação, ou, pelo menos, por nenhuma iniciação que possa ser descrita em palavras. Nãos se entra para ela por querer ou por ser chamado; nisto ela se conforma com a fórmula dos mestres: «Quando o discípulo está pronto, o Mestre está pronto também.» E é na palavra «pronto» que está o sentido vário, conforme as ordens e as regras.

Fiel à sua obediência — se assim se pode chamar onde não há obedecer — à Fraternidade de quem é filha e mãe, há nela a perfeita regra de Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Os seus cavaleiros—chamemos-lhes sempre assim — não dependem de ninguém, não obedecem a ninguém, não precisam de ninguém, nem da Fraternidade de que dependem, a quem obedecem e de que precisam. Os seus cavaleiros são entre si perfeitamente iguais naquilo que os torna cavaleiros; acabou entre eles toda a diferença que há em todas as coisas do mundo. Os seus cavaleiros são ligados uns aos outros pelo simples laço de serem tais, e assim são irmãos, não sócios nem associados. São irmãos, digamos assim, porque nasceram tais. Na ordem de Cristo não há juramento nem obrigação.

Ela, sendo assim tão semelhante à Fraternidade em que respira, porque, segundo a Regra, «o que está em baixo é como o que está em cima», não é contudo aquela Fraternidade: é ainda uma ordem, embora uma Ordem Fraterna, ao passo que a Fraternidade não é uma ordem."


Fernando Pessoa

terça-feira, dezembro 15, 2009

A Nefertiti



A Voz liberta,
a prisão que voa
ao som de uma gaivota,

A voz imortal que clama,
ateia e
incendeia,
com o ardor d´um
Desejo

O Céu, o Mar e
O Inferno.

O mar que derramas
o mar que clamas
e que transbordas em teu olhar

É o desejo d´um futuro
de saudade (I)mortal
de (in)temporal sonho

És memória d´um Futuro,
de um sonho do Todo-Mundo,
És chama purificadora

Mas…
Mas…
Mas…

O intemporal que fez mortal,
a dor que te fez ardor,
Purifica-te pelo Fogo,
num Fogo de Bel.
(Beltaine)


François de Sainte-Colombe

terça-feira, dezembro 08, 2009



Diz-me onde andas,
Perdida no sonho ou na ilusão da vida?
Diz-me onde vives,
Na Imortalidade perdida ou na loucura destemida?

Diz-me,
Alma reluzente,
de mel cintilante,

Diz-me,
que distância?
que caminho?
que monstruoso infinito que nos separa....?!

segunda-feira, novembro 16, 2009

Todo o começo é involuntário
Deus é o agente.
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.

A espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
"Que farei com eu esta espada?"
Ergueste-a e fez-se.

Fernando Pessoa

sexta-feira, setembro 18, 2009

Poeta pecaminoso,
poeta duvidoso,
caridoso
e invejoso
de uma vida não-Poética...

Poeta sonhador,
remador
ou velejador,
plantador e
agricultor
de naus-voadoras

baús de sonho
em que se vive
a prisão d´um Amor-Poema.


Francisco Canelas de Melo



Na Floresta (perdida)
do nosso Ser,
cresce vegetação abrupta,
cresce um desejo
inconstante
de te beber,

Águas cristalinas,
que espelham
a imensidão do nocturno
estrelar

Sede implacável,
incompreendida,
salgada
e doce,
de amarga
adstringência
que me adormece
a dor...


Francisco Canelas de Melo

A Poesia é morta...
O Poeta para além
do Poeta; o Homem
cativo,
aprisionado ao
tudo-Mundo.

Já não me sinto
Poeta,
místico,
ou profeta...

A Poesia é Voz
morta,
palavra apagada
num estado
pós-sonhado.

Angústia de invisível
tinta,
gritando em pena
afiada

Penetrante em papel-abismo
para além-vida,
além-sonho,
além Poeta-invisível!

Francisco Canelas de Melo

segunda-feira, setembro 07, 2009

Diário do Camiño - parte IV "Quero"

Quero escrever, e não me deixam
quero pensar, e não me deixam
quero..., mas o mundo não me deixa

Quero remar
numa barca sem remos,

Quero velejar
num navio sem velas,

Quero caminhar,
descalço,
(sem andar)
sentindo o trepidar
do Mundo.

Diário do Camiño - parte III "Porriño"

Terra das mulheres bonitas
onde olhos sensuais
devoram
o simples caminhar
de um peregrino

Há em tudo
forma,
um exotismo
quase erótico
que alimenta
a urbana mente

Na Floresta,
junto ao regato
caminha em Paz
o que vive
sem errância

No crepúsculo
diurno,
onde se ergue
o tal nocturno luar,
vive peregrino
sem destino
a caminhar...



Diário do Camiño - parte II

O dia ainda claro
esconde-se
e encobre-se
sob o horizonte

O cansaço já
é morto
e deposto
no romper
da Alvorada...



Dia da Lua, 27 de Julho de MMIX

Diário do Camiño - parte I

O Caminho nem sempre é fácil,
o Caminho é árduo,
sinuoso
e profundo

Hoje,
esta noite iniciarei mais uma demanda
em busca da minha verdadeira essência

Amanhã,
trilharei parte de mim,
o caminho é bruto,
e eu, Pobre Tolo,
cansado não estarei
em busca
de Destino,

Estou em Valença do Minho,
tenho o rio à minha fronte,
o Rio do Esquecimento.

Hoje,
caminharei nocturno
pelo rio do esquecimento,
esquecerei
e irei renascer

Não sei o que nascerei de novo,
se serei melhor,
se serei pior,
diferente, de certo, serei

Hoje,
irei sonhar,
(possivelmente acordado)
algo me espera,
algo me aguarda,
talvez uma passagem
por Tuí,
outrora Portuguesa.


Dia do Sol, 26 de Julho MMIX

quinta-feira, julho 23, 2009

"A Vós que me tiveste amor,
não olhai para a vida que perdi,
mas para aquela que comecei."

Santo Agostinho

sexta-feira, julho 17, 2009

"Os historiadores desviaram-nos, talvez, mais do que os outros, obrigando-nos quase a aceitar, não a verdade, mas as suas verdades..."

Louis Charpentier

terça-feira, julho 07, 2009

"O poeta vive só,
livre, peremptório, claro,
em estreita unidade com o corpo:
barro plástico para o Todo-Poderoso
esculpir a alma e o espírito

O poeta avança sobre o caos e as trevas,
contraditório, puro, sábio,
a sua vida está envolta em beleza:
o lustre opalino do pescoço das pombas,
os amigos imprevistos,
uma família espalhada plo mundo,
o Sol, a Lua, os gatos e as árvores

O poeta embriaga-se com água,
hidromel, chá de menta, ou súbito perfume
E inspira-se no ar d´atmosfera sagrada:
relê, Moisés, Cristo Jesus e Muhammad"

António Barahona

sábado, junho 20, 2009

quarta-feira, junho 17, 2009

"A iniciação comporta 3 tipos: 1 - a conquista da consciência etérica, para devido contacto entre o astral e os sentidos; 2 - A sublimação dos sentidos, misticamente; 3 - O conhecimento das coisas divinas, ou do lado divino das coisas."

Fernando Pessoa

sábado, junho 13, 2009

"Substituamos as personalidades à personalidade. Que cada um seja muitos. Basta de ser para si a primeira pessoa do singular de qualquer pronome ou verbo. Sejamos a Pessoa Absoluta do plural incomensurável."

Fernando Pessoa

domingo, maio 17, 2009

Saudade - D. Francisco Manuel de Melo



Serei eu alguma hora tão ditoso,
Que os cabelos que amor laços fazia,
Por prémio de o esperar, veja algum dia
Soltos ao brando vento buliçoso?

Verei os olhos, donde o sol formoso
As portas da manhã mais cedo abria,
Mas, em chegando a vê-los, se partia
Ou cego, ou lisonjeiro, ou temeroso?

Verei a limpa testa, a quem a Aurora
Graça sempre pediu? E os brancos dentes,
Por quem trocará as pérolas que chora?

Mas que espero de ver dias contentes,
Se para pagar de gosto uma hora,
Não bastam mil idades diferentes?


Dom Francisco Manuel de Melo

Da Arrábida - Frei Agostinho da Cruz

Alta Serra deserta, donde vejo
As águas do Oceano duma banda,
E doutra já salgadas as do Tejo:

Aquela saüdade que me manda
Lágrimas derramar em toda a parte,
Que fará nesta saüdosa, e branda?

Daqui mais saüdoso o sol se parte;
Daqui muito mais claro, mais dourado,
Pelos montes, nascendo, se reparte.

Aqui sob-lo mar dependurado
Um penedo sobre outro me ameaça
Das importunas ondas solapado.

Duvido poder ser que se desfaça
Com água clara, e branda a pedra dura
Com quem assim se beija, assim se abraça.

Mas ouço queixar dentro a Lapa escura,
Roídas as entranhas aparecem
Daquela rouca voz, que lá murmura.

Eis por cima da rocha áspera descem
Os troncos meio secos encurvados,
Eis sobem os que neles enverdecem.

Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às plantas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?

Respondem-me em segredo mil segredos,
Cujas primeiras letras vou cortando
Nos pés doutros mais verdes arvoredos.

Assim com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo
Que outras que há, ensinar querem falando.

Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razão, com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.

Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.

Ali me chamo cego, ali perdido,
Ali por tantos nomes me nomeio,
Quantos por culpas tenho merecido.

Ali gemo, e suspiro, ali pranteio;
Ali geme, e suspira, ali pranteia
O monte, e vai de meus suspiros cheio.

Ali me faz pasmar, ali me enleia
Quanto colhendo estou da saüdade,
Que por toda esta terra se semeia.

Ora me ponho a rir da vaïdade,
Ora triste a chorar com quanto estudo
Erros solicitei da mocidade.

Tudo se muda enfim, muda-se tudo,
Tudo vejo mudar cada momento:
Eu de mal em pior também me mudo.

Soía levantar meu pensamento
Assentado sobre estas penedias
Duras, eu duro mais nelas me assento.

Punha-me a ver correr as águas frias
Por cima de alvos seixos repartidas,
Que faziam tremer ervas sombrias.

As flores, que levava já colhidas,
Passando pelos vales enjeitava
Por outras doutra nova cor vestidas.

O livre passarinho, que voava,
Cantando para o céu deixando a terra,
Da terra para o céu me encaminhava.

Cuidei que se esquecesse nesta Serra
A dura imiga minha natureza;
Mas donde quer que vou lá me faz guerra.

Oh! quem vira naquela fortaleza
Rodeada de fogo de amor puro,
Daquele amor divino esta alma acesa!

Quão firme, e quão quieto, e quão seguro
No campo se pusera em desafio!
E quão brando sentira o ferro duro!

Mas se agora de mim me não confio,
Se fujo, se me escondo, se me temo,
É porque sinto fraco o peito frio.

Alevantam-se os mares; e pasmo, e tremo:
Vejo vento contrário, desfaleço,
A corrente das mãos me leva o remo.

Confesso minha culpa, bem conheço
Que por mais graves males que padeça
Menos padecerei do que mereço.

Mandais, Senhor, que busque, bata, e peça,
Eu busco, bato, e peço a vós, Senhor,
Sem haver cousa em mim que vos mereça.

Com os braços na Cruz, meu Redentor,
Abertos me esperai, co lado aberto,
Manifestos sinais do vosso amor.

Ah! quem chegasse um dia de mais perto
A ver cos olhos de alma essa ferida,
Que esse coração mostra descoberto!

Esse, que por salvar gente perdida
De tanta piedade quis usar,
Que deu nas suas mãos a própria vida.

A sangue nos quisestes resgatar
De tão cruel, e duro cativeiro,
Vendido fostes vós por nos comprar.

Padecestes por nós, manso Cordeiro,
Pisado, preso, e nu entre ladrões,
Ardendo o fogo posto no madeiro:
Arçam postos no fogo os corações.

Frei Agostinho da Cruz

Fernando Pessoa - “NOTA BIOGRÁFICA” DE 30 DE MARÇO DE 1935



Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa.

Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.

Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi Director-Geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.

Estado: Solteiro.

Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.

Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dt.º, Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa).

Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.

Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III» (em inglês também), 1922, e o livro «Mensagem», 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poema». O folheto «O Interregno», publicado em 1928, e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.

Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.

Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberdade dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário.

Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.

Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.

Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação».

Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.

Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos –a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania”.

Lisboa, 30 de Março de 1935 [no original 1933, por aparente lapso]
Fernando Pessoa

In: O mistério da Boca-do-Inferno: o encontro entre o Poeta Fernando Pessoa e o Mago Aleister Crowley, Lisboa: Casa Fernando Pessoa, 1995 (retirado do site da Casa Fernando Pessoa)

As compras da Feira do Livro 2009

Ordens Militares - Guerra, Religião, Poder e Cultura, Actas dos III Congresso das Ordens Militares, Palmela, 1998, Colibri.

Sonetos e Elegias, Frei Agostinho da Cruz, Hiena, 1994.

Cândido, Voltaire, Guimarães Editores,1999.

À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais, Fernando Pessoa, Editorial Nova Ática.

Um Grande Português ou A Origem do Conto do Vigário, Fernando Pessoa, Editorial Nova Ática.

O Provincianismo Português, Fernando Pessoa, Editorial Nova Ática.

O Fenómeno Religioso e a Simbólica, Aarão de Lacerda, Guimarães Editores, 1998.

O Meu Livro Secreto, Francesco Petrarca, Planeta Editora, 2008.

A Vida de Dante, Giovanni Boccaccio, Planeta Editora, 2007.

A Regra Primitiva dos Cavaleiros Templários, Pinharanda Gomes, Hugin, 1999.

O Caso Clínico de Eça de Queiroz - Contributo para a sua Patobiografia, Irineu Cruz, Caminho, 2006.

Titânia - História Hermética em Três Religiões e um só Deus Verdadeiro com vistas a mais luz como Goethe queria, Mário Cesariny, Assírio & Alvim, 1994.

A Caminho de Santiago - Roteiro do Peregrino, Conde de Almada, Lello Editores, s/d.

sábado, maio 16, 2009

"Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados."

Livro do Desassossego - Bernardo Soares