quinta-feira, maio 08, 2008

Versos de Ouro de Pitágoras

Em primeiro lugar, presta aos Deuses Imortais o culto habitual estabelecido pela Lei.

Respeita o juramento e os nobres heróis. Honra os defuntos e pratica todos os rituais libertadores em sua memória.

Venera o teu pai, a tua mãe e os teus próximos.

Escolhe alguém entre os homens e faz com que o teu amigo seja aquele que há-de brilhar pela sua virtude. Cede aos seus suaves conselhos, inspira-te nele. Nunca lhe queiras mal por qualquer pequeno erro, se fores capaz disso, porque a fatalidade pode por vezes modificar a vontade dos homens.

Fica a saber que é assim. Por isso empenha-te em dominar isto:

Em primeiro lugar o teu apetite, em seguida o teu sono, e depois os vãos desejos dos sentidos e o fogo da cólera.

Nunca faças o mal, com outros ou sozinho.

Acima de tudo, atenta nisto:

Respeita-te a ti mesmo.

Sê justo nos teus actos e nas tuas palavras.

Não inicies nenhuma acção sem ter reflectido.

Lembra-te que a morte é para cada um de nós a lei inexorável.

Quanto aos bens terrenos, sabe ganhá-los ou perdê-los com o mesmo estado de espírito.

E quanto aos males que o destino traz com ele, suporta-os sem gemer pela parte que te toca, tenta suavizar as marcas no que for possível.

Sabe ainda que:

Muitas vezes, os maiores males são afastados dos sábios.

Muitos e variados discursos, vis ou virtuosos, vêm acordar os homens. Não os aceites apressadamente nem os rejeites de modo precipitado.

Se te mentirem, suporta-o com doçura.

Ouve o meu conselho e segue-o sem vacilar:

Que ninguém, pela palavra ou pelos actos, te leve a proceder contra a tua vontade.

Reflecte bem antes de te decidires; é próprio de um louco cometer loucuras, por isso nunca faças nada de que te venhas a arrepender.

Não pretendas fazer aquilo que não sabes.

Aprende sobretudo o que for necessário saber. Se seguires estes conselhos, felizes serão os teus dias.

A saúde exigirá todos os teus cuidados; que o teu corpo tenha o alimento que é preciso, e exercício adequado para não o enfraqueceres. O que quero dizer por adequado é o que não te prejudica.

Vive na simplicidade, modestamente e sem moleza, evita o que te pode rodear de desejos, e não te entregues a gastos loucos, como fazem muitas vezes os ignorantes do belo.

Mas também não caias na temível avareza.

Adopta em todas as coisas a justa medida.

Faz aquilo que não te prejudica e avalia antes de agir.

Sabe que, ao acordares, a coisa urgente é traçar o plano dos teus actos futuros.

À noite, que o sono não te domine antes da tua consciência ter avaliado longamente todos os actos efectuados por ti durante o dia.

Interroga-te: "cometi algum erro? Que fiz eu? Ou então, será que não fiz o que devia ter feito?"

Revê assim os teus actos a partir do primeiro.

Se fizeste o mal, sabe arrepender-te.

Se fizeste o bem, sabe regozijar-te.

Sim, será este o teu objectivo constante dos teus esforços.

Observa estes conselhos:

Fá-lo com amor; eles poderão conduzir-te às divinas virtudes.

Juro por Aquele que transmitiu à nossa alma o Quaternário sagrado, fonte de eternidade de toda a natureza.

Mas antes de realizares a tua tarefa, terás de pedir aos deuses que te ajudem a completar a obra começada.

Quando fizeres de tudo isso um hábito, saberás os segredos dos deuses imortais tão bem como so dos homens mortais.

Saberás o que une ou separa os seres.

E se o homem atingir o direito de saber, verás que a natureza é a mesma por toda a parte; o teu coração já não se saciará com vãos desejos.

Verás que os males que os homens enfrentam foram exclusiva e livremente escolhidos por eles.

Porque estes desafortunados ignoram a felicidade que se encontra ao lado deles; tapam os ouvidos e fecham os olhos.

Poucos sabem escapar à infelicidade que os espreita.

Empurrados para cá e para lá, a fatalidade cega-lhes de tal modo o espírito que erram por toda a parte como troncos que flutuam, em males infinitos.

Sem que a possam ver, a mortificadora discórdia acompanha-os e leva-os à infelicidade.

Afasta-a de ti, foge dela com horror.

Ó Zeus, Tu, nosso Pai, se tu quisesses, poupá-los-ias dos males que os atormentam, se lhes mostrasses o segredo da sua alma.

Ganha coragem, meu filho, porque a tua raça é divina; a natureza sagrada far-te-á progredir, comunicando-te o fundo de todas as coisas.

Ao mostrar-to, ela permitir-te-á aplicar as lições do que prescrevi; remediarás os males da existência e livrarás a tua alma dos sofrimentos.

Todavia, abstém-te de certos alimentos de que falámos e que é preciso evitar para purificar a alma e para lhe assegurar a sua libertação.

Não faças nada sem razão; confia-lhe as rédeas da tua alma.

E quando finalmente deixares aqui o teu corpo, quando no livre éter voares, liberto para sempre das garras da morte, no seio dos Imortais, tu mesmo serás Deus.

O VINHO MÍSTICO (KHAMRIYA)

Em memória do Bem-Amado
Bebemos o Vinho que nos inebria
Antes mesmo da criação da videira

A taça que o contém
é um disco lunar brilhante
O Vinho, é sol.
Um crescente luminoso,
Um mordomo o serve à roda.
Com que luminosidade resplandece,
Já que no Vinho
Se misturam as estrelas !

Sem o perfume que exala
Um precioso perfume de musque
Eu jamais teria encontrado
o caminho da verdade
que conduz às suas tavernas.
Sem a luz que indica
Sua presença ao longe,
Sua imagem jamais teria
Nascido em meu espírito.

Pois neste século,
Sobrou dele apenas
um ligeiro sopro.
Como se no fundo dos corações
Um pacto secreto
Tivesse encerrado sua lembrança.

Então, apenas na tribo
Seu nome é mencionado,
Pois que uma embriaguez
Toma conta de seu povo.
Embriaguez sem vergonha
E sem pecado.

Por entre os flancos de uma ânfora
Lentamente ele subiu.
E logo, seu nome apenas
Permanece, em verdade,
Para o resgate de sua lembrança.

Tal lembrança
Visita , um dia
O espírito de alguém,
E por isso nesse alguém
A alegria passa a residir,
E a tristeza cela seu cavalo
Para ir-se embora, em longa viagem.

Os convidados descobrem
A tampa que fecha os vasos
Que o contêm.
Só esta visão já basta
Para inebriá-los
Antes mesmo de provar
A bebida.

Este Vinho, o derramamos
Sobre o solo
Onde um morto se enterra :
E tão logo o sopro o reanima
O cadáver e o morto
Levanta-se transbordante de vida.

Não se abandona um doente
Em seu terreno sombrio
Onde crecerá sua videira
Quando o mal tiver partido

O paralítico,
Assim que se aproxima
De suas tavernas,
Volta a caminhar.
Os mudos falam,
Quando se fala
diante deles
da sabor desse Vinho.

Assim que no Oriente
Sopra a brisa
Que traz o seu perfume,
No Ocidente,
Aquele que é privado de sua fragrância
Pode sentí-la
ainda outra vez.

Se, de dentro da taça
Uma gota respinga
Caindo sobre a palma da mão
Daquele que a segura,
Ele jamais se perderá
Caminhando pelas trevas
Pois em sua mão resplandecerá
Uma estrela.

Tal Vinho, é apresentado em segredo
A um cego de nascença :
E no dia seguinte, em plena alvorada
Ele se levanta, tendo recuperado a visão.
Quando se torna claro
o doce murmúrio desse Vinho,
Já logo recupera o ouvido
Aquele que é surdo.

Um tropel de cavaleiros
Ao trotar por sobre a terra
Onde cresce sua videira,
Jamais levaria no casco de seus cavalos
Qualquer resquício verminoso.

Um mago desenhou
Na testa de um possuído
As letras que formam seu nome
O que basta para curá-lo
Tal nome está bordado
No estandarte de um exército,
E todo o que marchar
Na sombra desta bandeira
É conduzido pela embriaguez

Ele educa seus convidados
E por eles, o homem indeciso
Adota o caminho
Das fortes resoluções

Ele sucita a generosidade
Na alma daquele
Cuja mão sempre ignorou doação
Ele ensina a doçura
Àquele que jamais a conheceu
Em seu momento mais colérico.

O mais forte da tribo
Tem o privilégio de beijar
A borda da taça,
Apenas este beijo
Permite-lhe saber
O sentido de suas perfeições

Dizem-me :
Descreva-o para nós,
Já que conheces tão bem
suas qualidades.
Sim, eu o descreverei,
Pois suas qualidades
Conheço-as perfeitamente.

Pureza !
Mas não a da água.
Sutileza !
Mas não a do ar.
Luminosidade !
Mas não a do fogo.
Alma carnal,
Sem corpo de carne.

Suas palavras precederam
Tudo o que existe aqui embaixo,
Quando nesse mundo
Faltavam a forma e a imagem

Por ele constituíram-se
Todas as coisas ;
Em seguida,
Por um certo saber, esconderam-se
Diante dos olhos que não compreendem.

Minha alma amou-o por inteiro.
Eles se misturaram
Para unirem-se
Mas não como uma simples
Mistura de duas matérias

Esse Vinho não foi extraído
De uma Vinha :
Adão é para mim um pai.
Vinha que não dá vinho :
Sua mãe é para mim uma mãe.

A pureza das taças
Contém na verdade
A pureza do sentido secreto
E cujo significado aparece
Através Dele.

A separação veio
Mas o todo é Um.
Nossas almas são o Vinho,
E nossa forma a videira.

Antes dele, não há antes ;
Depois dele, não há depois.
Sua necessária condição
É ser anterior
Ao mais recuado dos tempos.

Seu tempo
Precedeu o limite extremo do tempo.
O tempo de nosso pai
Veio apenas depois do seu.
Nossos pai viveu muito depois dele,
Como um órfão.

Seus admiradores
Celebram seus louvores,
Emocionados por sua beleza
São estes exelentes
Em verso ou mesmo em prosa.
Ao escutar os seus propósitos,
Regozija-se o que jamais ouvira,
Como o amante apaixonado
Pela bela Nou´m,
Assim que se pronuncia diante dele
O nome de sua amada.

Alguns me disseram :
Ao beber esse Vinho,
Cometeste iniquidade !
Isto não é verdade,
Pois iniquidade teria eu cometido
Ao privar-me de bebê-lo !

Que esta bebida
Alegre o coração
Dos habitantes do monastério !
A que embriaguez se abandonaram !
Entretanto não o beberam,
Mas apenas alimentaram
Sua intenção em bebê-lo.

Sua embriaguez, eu a experimentei
Antes de minha puberdade.
Em mim, ela será para sempre,
Mesmo depois de terem os meus ossos
Tornado-se poeira

Tal Vinho, bebe-o puro,
Pois, ao querer misturá-lo
A um outro licor
Que não a saliva do Amado,
Aí cometerás um crime !

Ele te espera nas tavernas,
Descobre o seu esplendor.
Bebe-o ao som de músicas,
Pois com ele, a música
É como uma presente que se oferece

Jamais ele habitou
Onde vive a tristeza.
E jamais a tristeza permaneceu
Na casa onde as canções se fundem

Embriaguez de uma hora !
O tempo se torna teu escravo
Sempre submetido,
Ainda que tua vida se interrompa
no final desta hora.
A ti então, o poder !

Aquele que viveu neste mundo
Sem embriaguez,
É como se não tivesse vivido !
Aquele que não morre
Desta embriaguez
Faltou-lhe a coragem
Neste mundo onde passou.

Que ele chore então por si mesmo,
O homem que abriu mão de seu direito,
Durante a vida inteira,
Direito de beber deste Vinho,
Vinho que rejeitou.


Omar ibn al-Farid
De como as gentes se dividiram por várias partes do mundo e como Túbal, neto de Noé,
veio povoar nosso Reino de Lusitânia e fundou nele a povoação de Setúbal.

Divididos em várias partes do mundo os descendentes de Noé, conforme a primeira divisão que já tocámos, Túbal, filho de Jafet, com a gente de sua família, escolheu por habitação mui acomodada a seu gosto a parte mais ocidental da Europa, para onde se partiu com grande número de gente; e, dando no mar mediterrâneo, se meteu com os de sua companhia em algumas embarcações feitas a modo de galés, descobertas e de menos fábrica que as do tempo de agora, como parece sentir Josefo em suas antiguidades e Xenofonte no livro dos equívocos. Nestas piquenas fustas navegaram ao estreito de Gibaltar, onde, levados das correntes do mar e ímpeto das ondas, saíram, como refere nosso Laimundo, ao mar Oceano, da grandeza e imensidade do qual pouco satisfeitos, como gente que trazia inda nos olhos a cruel destruição das águas, se acolheram à terra, dobrando sempre sobre a mão direita, té que ja no fim de alguns dias, tendo já passada uma grande ponta de terra, chamada dos antigos Promontório Saghrado e dos modernos Cabo de S. Vicente, se acharam em uma fermosa baía, por onde se lança no grande Oceano Ocidental um rio, maior em proveitos de pescarias e navegações que em quantidade de águas.

Vendo Túbal o bom sítio da terra, e os que consigo trazia enfadados de navegação tão larga, determinou fazer naquele lugar seu assento; e, tirando das embarcações o que trazia, deu princípio a uma povoação e modo de República, ordenada com as brandas leis e pouco maliciosos costumes daquele novo mundo, fundando moradas de sua vizinhança de ramos de árvores, cobertas com o feno de campo, sem as soberbas suntuosidades que a malícia dos homens inventou no tempo adiante.

Aqui viveu Túbal alguns anos, com toda a gente de sua companhia, apacentando os gados em que tinham naquele tempo o melhor de sua riqueza, e dele se deu nome à nova povoação que fundara, chamando-lhe Setúbala, que, segundo o Viterbense, tanto significa como ajuntamento de Túbal, e Pompónio Mela a chama Dúbal, usando da muita semelhança e quase uniformidade que sempre tiveram e têm as letras D e T, de que os autores usavam algumas vezes sem nenhuma distinção.


Esta povoação é a que no tempo de agora, com mui piquena alteração do primeiro nome, chamamos Setúval, assaz conhecida no Reino de Portugal e muitos fora dele, pelo grande e seguro porto de mar que tem junto de si e pela cópia de fermosas canterias de jaspe e pórfidos finissimos, donde se levam para diversas partes do mundo.

Desta antiquíssima cidade fez o mestre Florião do Campo uma estendida narração em seu livro primeiro, confessando ser ela a primeira que em Espanha teve nome e figura de República ordenada, sem consentir que Túbal aportasse primeiro em Portugal que em Andaluzia; mas com dizer que desembarcou noutra parte atribue a Castela a glória de mais antiga, e Martim de Viciana, buscando modo para engrandecer sua pátria, trabalha por mostrar que a desembarcação destes primeiros povoadores de Espanha foi no Reino de Valença, cuja história ele compos, cheia de muita doutrina. Depois dos quais achou Garivai outras novas conjecturas, donde conclue que Biscaia foi a primeira região em que Túbal tomou terra e assentou morada. Mas, como tudo o que dizem traz mais fundamento em imaginações e subtilezas inventadas de bom juízo, que em fé e autoridade de livros antigos, não há para que aprovar nem contradizer nenhuma delas. Mas com eles próprios, que ao fim não podem fugir de força e autoridade que tem a tradição antiga, digo que nosso Reino foi o mais antigo na povoação e Setúval o lugar em que primeiro ordenaram modo de vivenda e vezinhança com uma.


Livro Primeiro da Monarchia Lusitana - Frei Bernardo de Brito

terça-feira, maio 06, 2008



Sou a Pedra,
Sou o aço,
o imutável,
a Luz incriada!

Sou a vontade inquebrável,
a luz sobre a sombra,

Sou o rouxinol cantando,
a lontra nadando,
o pica pau perfurando
o interior do meu Ser.

Sou a folha caindo
sobre o leito do rio
flutuo p´lo mundo
boiando sem rumo...

Sou o regato do Amor
correndo...
...desaguando no
Abismo do sonho!


Francisco Canelas de Melo

quarta-feira, abril 30, 2008

Escada sem corrimão

É um escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.


Os degraus quanto mais altos,
mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do Coração.

Sobe-se numa corrida.
Corre-se p´rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.

David Mourão Ferreira

terça-feira, março 04, 2008

Nigredo



Ergue-te,
poeta perdido,

Ergue-te,
da profunda
cova escura
onde habitas,
plantado,
onde te enterraste
a ti mesmo,
num momento
de poético suicídio,

Ergue-te,
profundo Poeta,
Ergue-te,

Ergue a tua mão,
Ergue,
Ergue acima de tudo
a tua Sabedoria,

Porque o abismo negro
das trevas
onde tu, poeta,
estiveste mergulhado

foi o maior ensinamento
que tu, Ser de Lux
poderias ter

Na maior treva
resplandece a menor
partícula de Lux

Aí, tu
nas trevas embebido,

oh poeta maldito,
viste a escuridão,
ouviste o silêncio,
sentiste a profunda imensidão,

transmitida
pelo cintilar
da Chama Eterna.


Francisco Canelas de Melo
Olho para o Céu
e vejo a Nau,
uma Nau esculpida de branco
pela forma imensa duma nuvem

olho para o Céu
e vejo um Mar por navegar,
vejo a imensidão do Mundo
esperando por Nós,
pobres e eternos
Argonautas

Espera-nos o profundo Mar
da Eternidade,
a calmaria de suas águas,

Um Mar de Estrelas,
Um Mar sem Fim,

Ergue-te Vela
à bolina deste vento,
desta poeira cósmica
que nos leva,
eternos navegadores,
a Mares
nunca dantes
Navegados,

Que nos levam
ao Infinito Mar
da Sabedoria,
guardada
no abismo
de cada Alma.


Francisco Canelas de Melo
Cavaleiro,
que vagueias pela escuridão
das trevas
em busca
da profunda Luz
que irradia,

ao fundo
aquela
Luz brilhante
que do Céu
ilumina
numa noite escura,

é essa a estrela,
essa estrela de sete pontas
que guia teu caminho

e aí, pobre peregrino
segue,
passo a passo,
respirando profundamente
perante cada obstáculo

e aí, nobre caminhante
encontrarás a Força
vinda de ti,
para superares
para atravessares
para alcançares
a outra margem!

Atravessas
este rio d´esquecimento
onde deixarás
para trás
tudo aquilo,
que ficou
na outra margem!

Hoje, depois de passado
novamente a travessia
encontrarás
novas provas,
novas pedras,
novas tentações,
novas desilusões
que te levarão
a desistir...

Mas que tu, nobre peregrino
empunhando teu cajado
iluminado p´la Strella do Céu
continuarás,
a caminhar,
passo a passo,
rumo à eterna
imensidão...


Francisco Canelas de Melo

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Renascer


Aos Druidas da Lusitânia





Nasce a Lux


a cada dia
renascida das Trevas

Deste inverno

profundo
que isola
a cada instante...

Renasce

a cada dia

Em Oriente

A LUX
que alumia
o coração

A alma de cada Ser



Hoje dia morno
em que nem frio triunfas,
nem calor reinas,

Nasce e brota
dum rebento
um novo Ser,

um novo RenasCer
da Primavera

Tão breve
Tão próxima,

A LUX renasce,
supera as Trevas
e aproxima-se

do seu Triunfo Final...


Francisco Canelas de Melo
Noite escura,
noite profunda
de dor e nostalgia,
que embarcas minh´alma,

escuridão profunda
do meu Ser
que revelas em mim
a loucura
d´um amor perdido

Hoje em trevas embebido
sonho a Luz Renascida

Hoje, spero a Lux
a luz clara

A escuriclaridade profunda
que em meu Ser

Reflecte

A Chama de Minh´Alma!


Francisco Canelas de Melo
Em ti,
Meu Bosque Sagrado,
meu refúgio,

de mil-ventos,
densas pedras,
verdes folhas,

Cai o Homem perdido,
um Homem
a espera de Lutar...


Francisco Canelas de Melo

terça-feira, janeiro 22, 2008

De Laudes...


(...)

Quando a guerra está iminente, no seu interior preparam-se com a Fé, e no seu exterior com as armas necessárias. Procuram levar cavalos forte e rápidos, porém, não se preocupam com a cor do pêlo, nem com ricos arreios. Pensam no combate, não no luxo; aspiram à vitória, não à glória; desejam ser mais temidos do que admirados; e vão organizados para as batalhas, planeando tudo previamente.
Conforme a expressão dos Santos Macabeus, sabem que poucos valem por muitos, pois Deus dá a vitória independentemente do número de soldados. São monges e soldados, pois usam a mansidão do monge e a fortaleza soldado.

(...)

O ter morrido o inocente pelo culpado, não é justiça, mas bondade, misericórdia e amor pleno.

(...)

São Bernardo de Claraval

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Versos de Ouro de Pitágoras

Em primeiro lugar, presta aos Deuses Imortais o culto habitual estabelecido pela Lei.

Respeita o juramento e os nobres heróis. Honra os defuntos e pratica todos os rituais libertadores em sua memória.

Venera o teu pai, a tua mãe e os teus próximos.

Escolhe alguém entre os homens e faz com que o teu amigo seja aquele que há-de brilhar pela sua virtude. Cede aos seus suaves conselhos, inspira-te nele. Nunca lhe queiras mal por qualquer pequeno erro, se fores capaz disso, porque a fatalidade pode por vezes modificar a vontade dos homens.

Fica a saber que é assim. Por isso empenha-te em dominar isto:

Em primeiro lugar o teu apetite, em seguida o teu sono, e depois os vãos desejos dos sentidos e o fogo da cólera.

Nunca faças o mal, com outros ou sozinho.

Acima de tudo, atenta nisto:

Respeita-te a ti mesmo.

Sê justo nos teus actos e nas tuas palavras.

Não inicies nenhuma acção sem ter reflectido.

Lembra-te que a morte é para cada um de nós a lei inexorável.

Quanto aos bens terrenos, sabe ganhá-los ou perdê-los com o mesmo estado de espírito.

E quanto aos males que o destino traz com ele, suporta-os sem gemer pela parte que te toca, tenta suavizar as marcas no que for possível.

Sabe ainda que:

Muitas vezes, os maiores males são afastados dos sábios.

Muitos e variados discursos, vis ou virtuosos, vêm acordar os homens. Não os aceites apressadamente nem os rejeites de modo precipitado.

Se te mentirem, suporta-o com doçura.

Ouve o meu conselho e segue-o sem vacilar:

Que ninguém, pela palavra ou pelos actos, te leve a proceder contra a tua vontade.

Reflecte bem antes de te decidires; é próprio de um louco cometer loucuras, por isso nunca faças nada de que te venhas a arrepender.

Não pretendas fazer aquilo que não sabes.

Aprende sobretudo o que for necessário saber. Se seguires estes conselhos, felizes serão os teus dias.

A saúde exigirá todos os teus cuidados; que o teu corpo tenha o alimento que é preciso, e exercício adequado para não o enfraqueceres. O que quero dizer por adequado é o que não te prejudica.

Vive na simplicidade, modestamente e sem moleza, evita o que te pode rodear de desejos, e não te entregues a gastos loucos, como fazem muitas vezes os ignorantes do belo.

Mas também não caias na temível avareza.

Adopta em todas as coisas a justa medida.

Faz aquilo que não te prejudica e avalia antes de agir.

Sabe que, ao acordares, a coisa urgente é traçar o plano dos teus actos futuros.

À noite, que o sono não te domine antes da tua consciência ter avaliado longamente todos os actos efectuados por ti durante o dia.

Interroga-te: "cometi algum erro? Que fiz eu? Ou então, será que não fiz o que devia ter feito?"

Revê assim os teus actos a partir do primeiro.

Se fizeste o mal, sabe arrepender-te.

Se fizeste o bem, sabe regozijar-te.

Sim, será este o teu objectivo constante dos teus esforços.

Observa estes conselhos:

Fá-lo com amor; eles poderão conduzir-te às divinas virtudes.

Juro por Aquele que transmitiu à nossa alma o Quaternário sagrado, fonte de eternidade de toda a natureza.

Mas antes de realizares a tua tarefa, terás de pedir aos deuses que te ajudem a completar a obra começada.

Quando fizeres de tudo isso um hábito, saberás os segredos dos deuses imortais tão bem como so dos homens mortais.

Saberás o que une ou separa os seres.

E se o homem atingir o direito de saber, verás que a natureza é a mesma por toda a parte; o teu coração já não se saciará com vãos desejos.

Verás que os males que os homens enfrentam foram exclusiva e livremente escolhidos por eles.

Porque estes desafortunados ignoram a felicidade que se encontra ao lado deles; tapam os ouvidos e fecham os olhos.

Poucos sabem escapar à infelicidade que os espreita.

Empurrados para cá e para lá, a fatalidade cega-lhes de tal modo o espírito que erram por toda a parte como troncos que flutuam, em males infinitos.

Sem que a possam ver, a mortificadora discórdia acompanha-os e leva-os à infelicidade.

Afasta-a de ti, foge dela com horror.

Ó Zeus, Tu, nosso Pai, se tu quisesses, poupá-los-ias dos males que os atormentam, se lhes mostrasses o segredo da sua alma.

Ganha coragem, meu filho, porque a tua raça é divina; a natureza sagrada far-te-á progredir, comunicando-te o fundo de todas as coisas.

Ao mostrar-to, ela permitir-te-á aplicar as lições do que prescrevi; remediarás os males da existência e livrarás a tua alma dos sofrimentos.

Todavia, abstém-te de certos alimentos de que falámos e que é preciso evitar para purificar a alma e para lhe assegurar a sua libertação.

Não faças nada sem razão; confia-lhe as rédeas da tua alma.

E quando finalmente deixares aqui o teu corpo, quando no livre éter voares, liberto para sempre das garras da morte, no seio dos Imortais, tu mesmo serás Deus.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Dois anos de profunda Saudade




"A obra divina, na sua realidade permanente, é o sacerdócio eterno, e a Ordem do Graal é a expressão da Ordem de Melquisedec. Na verdade, a Ordem de Melquisedec mantêm-se, para sempre, permanência e universalidade. É o fim último a alcançar. É invisível e presente. Nela estão ocultos o Graal e a Palavra. Melquisedec é sacerdote e rei..."


Raymond Bernard

sexta-feira, novembro 23, 2007

Hoje sou Fénix renascida,
vivo cada dia
na esperança de um
Amor Divino.

A Chama que embarca meu Ser,
Aquela que aquece o meu rumo
e alumia meus passos...

Esta direccionada
no Caminho da Eternidade.

Hoje, escuridão profunda
dissiparás perante
a claridade de minh´Alma!


Francisco Canelas de Melo

Melodia divina
que me fazes
sonhar com eternidade
que embarca minha Alma
e dirige meus passos
no longo caminhar
que é a Vida
após Vida...

Profunda Melodia
que amarra meu Ser
as asas
d´um Anjo.

Melodia que me fazes voar,
ascender
a Eternidade Divina!


Francisco Canelas de Melo

terça-feira, setembro 18, 2007

Paradoxal Matemática

Talvez que um mais um são somente um
pois a união de dois Seres, resulta somente num.

O Amor é assim a maior fórmula matemática,
totalmente paradoxal,
pois a adição de dois Seres, resulta apenas num...

quinta-feira, setembro 06, 2007

Ai a morte,
a dor
e a nostalgia,

O respirar da vida
num suspiro de morte

Quem és tu?
- A vida!

Quem sou eu?
- A morte que tira a vida.

Homens caídos,
que se tombem
nesse embrião do mundo.

Ergue-te,
profundo,
da infinita guarida
de minh´alma.

Ergue-te punho
e abraça a
Lux Divina
de minha
Espada!


Francisco Canelas de Melo

quarta-feira, setembro 05, 2007




«(...) A Cavalaria deve ser, em primeiro lugar, uma testemunha. Os grandes valores, a realidade, as grandes qualidades da cavalaria estão lá e presentes, mas por outro lado, não chega estarem presentes. É preciso agir, não apenas como exemplo, mas intervir quando é preciso. E isto é extremamente importante.

A Cavalaria, os seus objectivos, não mudam nunca. Revestem-se de novos termos, mas mantêm-se os mesmos. E a grande via, a grande, grande via da Cavalaria, a que contém todas as outras possibilidades, todas as outras regras, foi exprimida uma única vez através de termos muito claros: "Amai-vos uns aos outros". Porque, todas as dificuldades com que nos deparamos são devidas ao facto das pessoas não se amarem umas às outras.

(...)

Os ideais não são relativos a um determinado tempo. São permanentes, eternos, embora compreendidos de forma diferente, captados de forma diferente. Mas, na realidade, são sempre os mesmos ideais, os mesmos grandes princípios. E a partir do momento em que estes grandes princípios sejam aplicados, a Terra tornar-se-á um lugar paradisíaco, um paraíso. (...)»


Pequeno excerto de uma entrevista da revista Lusophia a Raymond Bernard

www.tradition-mystique.net

terça-feira, setembro 04, 2007


"Quem viveu a certeza lembra-se dela para sempre,
e esta certeza é transmitida a todos aqueles com
os quais o acordo interior é estabelecido."

O "Velho" da Montanha


"pocas veces se interpone
el destino en el camino
de un sabio"

sábado, julho 28, 2007

Que mais a Vida
que o Sonho?

Viver sonhando...
Sonhar vivendo...


Francisco Canelas de Melo
I.

Azul do mar,
Azul do céu,
nocturno,
vente oceânico
de tantos temores,
em ti se encerram
mistérios,
e fados antigos,
de dor,
de amor,

Denso oceano
navegador
onde aportarás
a dor?

Génio marinheiro,
velejador,
em bolinas de sonho,
navegando pelo Mundo
Aquém e Além Dor



II.

Salvé tridente,
mestre marinho,

Senhor dos Mares,
eterno pregador

destes peregrinos
sem dor,

somos navegadores
do destino.



III.

Aporto no cais da Saudade,
e vivo,

Parto,
sinto saudade da saudade
e vivo,

Infeliz por viver
sem Saudade,
com saudade
da Saudade.

Marinheiro de oceanos,
de mares celestiais,
depositário do sonho
de sonhar

És pastor e pescador,
guias teus passos
lançando tuas redes
ao mar,
aos
Mares
de sonhos
de viver
eternamente
Sonhando.


Francisco Canelas de Melo
Oração
sem horas,
em submersas
(H)oras,
entranhas
cuspidas
d´amargura
sujeita
em negro
respirar,

células-mortas,
despidas de vida,
putrefacta,
de tanto viver

profundidade tremenda,
dor sem dor,
dor sem fim,
sem alcance
dum açor

ar rebelde,
carne renascida,
em sopro divino

Luz tranquila
em profunda
noite,
luar disperso
em tamanha
tranquilidade

Vós, carne putrefacta,
Vós, imortal Alma
que clonas em meu Ser,
em meu Viver,
Re-surge
profunda,
intensa,
como vida
após viver.

Francisco Canelas de Melo

quinta-feira, julho 26, 2007

Santiago



Santiago, o Apóstolo


Tiago, filho de Zebedeu e Salomé, e o seu irmão, João Evangelista, pescadores do mar da Galileia, foram chamados por Jesus Cristo (Mateus, 4:21). Estes apóstolos, juntamente com Pedro, gozavam de uma especial confiança e relação com Jesus, destacando-se do resto do grupo, testemunhando os momentos importantes (Marcos, 9:2-8). Após a morte de Jesus, Santiago é parte integrante da formação da Igreja Primitiva vindo a pregar não só na Palestina, mas também na Hispânia. Passou seis anos a pregar em Portugal e Espanha. No ano de 44 D.C., 12 anos após a ressurreição de Cristo, regressa à Palestina acompanhado dos seus discípulos Teodoro e Atanásio. Diz a tradição que foram celebrar a Páscoa em Jerusalém. Nesse retorno, Tiago Maior é preso e decapitado por ordem de Herodes Agripa I (Actos 12:1-2). Santiago torna-se, assim, o primeiro apóstolo mártir. Conta-se que, durante o caminho até a sua execução, realiza dois milagres: a conversão e baptismo do guarda que o acompanhava, um fariseu chamado Josías, e a cura de um paralítico.

Diz a lenda que o seu corpo foi atirado às feras. Porém os seus discípulos, Teodoro e Atanásio, transladam o corpo para o local onde ele havia pregado, numa viagem de sete dias, numa barca sem leme nem velas. Esta barca, guiada por um anjo, passa pela costa portuguesa e aporta na ria de Arosa, em Iria Flávia, actualmente conhecida como Padrón. Depois, segue-se a viagem até Liberum Donum, local onde seria sepultado o apóstolo. O transporte fez-se numa carroça puxada por uma junta de bois, que, pela tradição, se dizem bravos. Os animais param três vezes ao longo do percurso. Estranhamente, estas paragens acontecem todas a poucos metros umas das outras. Os discípulos interpretaram que a cada uma delas corresponde uma incumbência especial. Assim, no primeiro local, edificam uma capela; no segundo, uma fonte; e finalmente o terceiro, será o local onde é depositado o corpo e as relíquias de Santiago.

Pensa-se que as peregrinações ao túmulo começaram quase imediatamente, bem como as perseguições ordenadas pelo Imperador Vespesiano, acabando por proibir o culto Jacobeu, o que provoca um esquecimento letárgico.

No ano de 814, Pelaio, um eremita num bosque de Carvalhos próximo de San Félix de Solovio, ao seguir uma revelação que tivera durante o sono, no qual anjos adoravam uma arca, descobriu um túmulo que continha algumas relíquias. Pelaio corre a contar a sua revelação ao Bispo de Iria Flávia, Teodomiro. O bispo dirigiu-se ao bosque sagrado do ermitão, e tentou atingir o estado semelhante ao do eremita, jejuando três dias. Teodomiro, penetrou no bosque e identificou uma capela que continha três campas. Esta foi de imediato associada ao culto Jacobeu, e Teodomiro quis acreditar que se tratava do sepulcro de Santiago e dos seus dois discípulos. Afonso II das Astúrias, foi o primeiro peregrino deste novo ciclo do culto a Santiago.

Sobre este local foi erguida a Catedral de Santiago de Compostela.

De acordo com as tradições associadas à história da reconquista cristã, Santiago teria aparecido, pela primeira vez, miraculosamente, na Batalha de Clavijo, em 844. Montado num cavalo branco, ergue um estandarte da mesma cor com uma cruz vermelha estampada. Percorre o campo de batalha decepando os mouros com a espada que lhe dará nome. Desde então, a designação Matamoros torna-se popular. Comummente existem também referências ao nome.

Entretanto, dá-se a investida muçulmana de Al-Mansour. Este entrou na catedral destruída e deu de beber ao seu cavalo na pia baptismal.

Sancho III de Navarra, no século XI, determina um percurso de peregrinação que se irá manter até aos nossos dias. No final do mesmo século, o rei de Leão, Afonso VI, cria um sistema de assistência aos peregrinos com instalação de abrigos, e incentiva a fundação de ordens militares destinadas a protecção dos peregrinos.

Santiago torna-se numa das três peregrinações da Cristandade, juntamente com Roma e Jerusalém.


As três Faces


Curiosamente, Santiago é representado, iconograficamente, de três maneiras: como Apóstolo, como Peregrino e como Cavaleiro ou Matamoiros.

A primeira não é mais do que a comum representação de todos os apóstolos, como um dos pilares da Igreja. A segunda trata-se da imagem de Santiago, representado com o bordão que sustenta e apoia o peregrino na caminhada, a cabaça – fonte de água e sabedoria – juntamente com a vieira, representação simbólica do apóstolo. Finalmente, na terceira representação, Tiago Maior, é representado montado num cavalo branco, envergando uma veste branca, cor do seu estandarte. Neste, destaca-se a espada em forma de cruz. A sua mão alteia, ainda, uma espada erguida contra os infiéis.


O Culto


A Igreja Romana celebra o dia de Santiago a 25 de Julho, enquanto que, por sua vez, a Igreja Ortodoxa celebra a 30 de Abril e a Igreja Copta a 12 de Abril.

Não deixa de ser um facto curioso, a fundação da nacionalidade lusa estar associada à batalha de Ourique, que decorreu no dia 25 de Julho de 1139. Facto ainda mais interessante é a lenda que lhe é associada. Afonso Henriques foi visitado por um velho homem que o rei já tinha visto em sonhos e que lhe fez uma revelação profética de vitória. Contou-lhe ainda que «sem dúvida Ele pôs sobre vós e sobre a vossa geração os olhos da Sua Misericórdia, até à décima sexta descendência, na qual se diminuirá a sucessão. Mas nela, assim diminuída, Ele tornará a pôr os olhos e verá». O rei deveria ainda, na noite seguinte, sair do acampamento, sozinho, logo que ouvisse a sineta da ermida onde o velho vivia, o que aconteceu. O rei foi surpreendido por um raio de luz que, progressivamente, iluminou tudo em seu redor, e pôde distinguir, aos poucos, o Sinal da Cruz e Jesus Cristo crucificado. O rei, emocionado, ajoelhou-se e ouviu a voz do Senhor que lhe prometeu a vitória naquela e noutras batalhas; por intermédio do rei e dos seus descendentes, Deus fundaria o Seu império, através do qual o Seu Nome seria levado às nações mais estranhas, e que teria para o povo português grandes desígnios e tarefas.

D. Afonso Henriques voltou confiante para o acampamento. No dia seguinte, perante a coragem dos portugueses, os mouros fugiram, sendo perseguidos e completamente dizimados.



Francisco Canelas de Melo


terça-feira, junho 19, 2007

É esta vida profunda
que habita em ti,
pobre pessoa,
então nobre Alma.

Em clarear dia,
de emersa noite dormida,
em eira de terra
chovida,
de lágrimas salgadas,
revela-te Alma
tão adormecida.

Francisco Canelas de Melo
Sonho contigo,
Santo Bosque
de silêncio
profundo,
escutando de ti
o mais sensível
respirar
de uma vida em ti.

As memórias
não as perdi,
envoltas em sombra,
em vida submersa,

Tão próximas,
tão vivas,

Esperando por mim,
vivendo em mim,
na esperança divina
de ressuscitar em mim.

Francisco Canelas de Melo
Uma flor
cuja fauna encerra
em plena Saudade
eterna
destes campos
de verde sonho,
desta vil esperança,
Tão tortuosa,
tão profunda
e infinita....

Francisco Canelas de Melo

sábado, junho 09, 2007

AO REI DOS POETAS PORTUGUESES

HOMENAGEM

És Rei - a coroa fúlgida

Conquistaste-a na peleja

Da matéria com o espírito:

Venceu este – Quem deseja

Que domine a sombra a Luz?

Bem hajas, que em teus esforços

De dar vista aos cegos d'alma,

Tens levado a crença aos peitos,

Revelado o que é a cruz. …

Pois não tem o lenho erguido

Sobre a eminência do Golgotha

N'um epitaphio uma lei? . . .

Quem a cumpre? – Esse preceito

Que condemna o obscurantismo,

Segue-o acaso alguma grei?

E se alguma o segue, entende-o? . . .

Não entende, não, a fundo;

Que inda a sombra cobre a terra,

Que inda é pouca a luz no mundo.

És rei, és rei cujo nome

Se antevê na eternidade;

Astro na noite dos tempos

Através da longa idade.

No lavor, lavor sagrado,

Aos irmãos dando thesouros,

Fabricaste o próprio sceptro,

Ès rei nos carmes, no plectro,

Que alteias, que divinizas!

Vate egrégio, homem portento;

És monarcha na poesia,

És um deus no pensamento.



António Feliciano de Castilho

quinta-feira, maio 10, 2007

Amo a vida e o desdém...
A eterna ignorância
que me leva a viver,
a amar o mais pérfido ser,
sem o Ser...

Viver a desventura
da noite,
dheburas municipis...

Quase morto
este dia,
em que noite recebo,
às portas do dia...

Francisco Canelas de Melo

domingo, maio 06, 2007


Em trono de
Vahalla,
Odin,
Munnin e Huginn,
assentes em seus ombros,
murmurram anseios d´homens,
de eternos lutadores,
esses guerreiros d´Asgard...

Cai valoroso,
pela Espada de Burheinn,
Espadas avermelhadas,
Valquírias carregadoras
de heróis ressuscitados...

Soam sopros de homens
entoados em clamor
deste eterno Lutador!

Gritam Cornos
à partida da Dor!

Homem Renascido
que enfrentas o Temor
destes Heróis Perdidos
Adormecidos pela Dor!

Francisco Canelas de Melo

Na sala dum Trovador,
cantou seu alaúde,
melodias antiquas de dor

Cantigas d´um Amigo,
Bardo embuçado
P´lo mover da vida...

Eras encobertas pelas
Brumas
de um dia...


Francisco Canelas de Melo
in Palácio do Bussaco