quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Sétima Carta

"Também amar é bom: porque o amor é difícil. O amor de uma pessoa por outra: é talvez essa a maior dificuldade que conhecemos, o extremo, a última prova e teste, o trabalho que todos os outros trabalhos apenas preparam. É por isso que a juventude, que é principiante em tudo, não pode ainda amar: tem de aprender primeiro. Com todo o seu ser, com todas as suas forças, concentrada no seu coração solitário e aflito que bate em movimento ascendente, tem de aprender a amar. Mas o tempo de aprendizagem é sempre longo e fechado, e por isso para quem ama o amor é solidão por muito tempo, pela vida fora, é um isolamento que ascende e se aprofunda. Amar não tem de início nada que ver com abrir-se, entregar-se e unir-se a uma outra pessoa (pois o que seria uma união do que ainda não se esclareceu nem completou, do que ainda se subordina...?), é antes uma ocasião sublime concedida ao indivíduo para que ele possa amadurecer, tornar-se qualquer coisa dentro de si, tornar-se mundo, tornar-se mundo para si em nome de um outro, é um imperativo grande e imodesto que faz dele um eleito e o chama para a distância. É só neste sentido, enquanto injunção para trabalhar dentro de si («escutar e martelar dia e noite»), que a juventude poderá usar o amor que lhe é dado. A abertura e a entrega e toda a espécie de comunhão não é para ela (que terá ainda de poupar e guardar por muito, muito tempo), é o último estádio, é talvez qualquer coisa que a vida humana agora ainda mal pode alcançar. (...)"

"Cartas a um Jovem Poeta" (Sétima Carta) de Rainer Maria Rilke

1 comentário:

Egípcia disse...

É fantástico este pensamento :)

é como se no nosso interior estivesse a chave de tudo e para tudo... a compreensão para os incompriendidos, e o mais profundo dos sentimentos.

:)